Belo Horizonte, 11 de maio de 2015
Querido,
Escrevo esta carta a fim de me despedir. Para tanto precisei acender as luzes de nosso quarto, uma exceção à escrita. Me peguei estranha, numa dulcíssima prisão que antes chamávamos conforto. O vento que te fazia desligar o ar condicionado, me gela a alma. Minha mente gira em torno de hipóteses inúteis e indelicadas. Minha tatuagem doí em âmago, a mesma dor de não ter tido você lá... Segurando minha mão. A foto que você ganhou, de nós dois infantilizando a vida, eu queria comigo.
Você costumava cantar para mim "Onde quereres revólver sou coqueiro", e foi assim que nosso amor começou. Você como meu porto, meu coqueiro, minha sombra. No nosso primeiro elance de amor Colplay tocava diariamente, você se lembra? Torrentes de paixão.
Naquela época, haviam planos à dois, ideias partilhadas... Convenhamos, eu sempre sofri mais doída que você. Mais 'queirosa' que você. Com os planos e com as expectativas.
Naquela época, pactuamos um casamento. Uma união estável sem liberdade. Um silêncio acalentador. Até no trabalho, até no trabalho.
Precisei de você, você veio. Juntamos sonhos na carreira profissional. Chamamos amigos.
Partilhamos segredos e conspirações.
Até fingirmos competir. Toda competição deveria ser revólver, mas para nós era coqueiro. Você sempre soube? Ou você sentia que não? Eu acho que sempre soube, mas você me passava uma segurança tão imensa... Tão "vai dar certo", que eu me esquecia das certezas. Você fez por querer?
Até que chegou o momento, e onde quis coqueiro era obus.
É por você ser homem? Qual é a explicação? O sentimento que me assalta é tão bruto, tão ferrenho que não consigo ficar feliz por você. Como você pôde fazer isso comigo?
Todos os nossos amigos ficaram ao seu lado. Todos eles. Me sinto traída. Essa era minha vida, e agora eu não tenho a quem recorrer. Você sempre soube que eu não era uma boa pessoa, mesmo tentando ao máximo. Você sabe, eu sei que sabe, que eu não sei lidar com rejeição... Foi você quem me ensinou isso.Você sabia que lidaria melhor, eu também sabia. Eu sabia que seria mesquinha, você também. Por que saber as mesmas coisas se não podemos planejar o futuro juntos??
Agora estou aqui, nesse quarto escuro... Relendo o Neruda que você me deu em meu aniversário. "Posso escrever os versos mais tristes essa noite". Falando em aniversário, eu ainda terei de passar esse dia sozinha, sem nossas tradições, sem você. Não sei se saberei suportar novamente essa dor que senti antes de te conhecer, não sem você. A dependência é grande e a raiva me corrói, como posso lidar com essa agonia que agora está ligada diretamente a você?
Me entristece ver que você não deu o máximo de si, e mesmo assim conseguiu. Eu já vi você dando seu máximo, não chega aos pés disso. Que você não terá de sacrificar nada, você não precisaria largar nada que ama. Me enraivece te ver tranquilo, enquanto eu reformulo minha vida... Ela toda. Me enfurece saber que você não agiria da forma que estou reagindo.
Que direito você tem de roubar meus sonhos? Como pôde lutar minhas batalhas? Como você pôde me deixar aqui... Sozinha?
E o pior... Como você pôde sugar a minha vontade de trabalhar e defender os meus ideais? Eu olho para o trabalho que fizemos juntos e quero me esconder... Por que?
Você vivia brincando sobre como eu estou próxima de encarar a vida. "você se forma daqui a um ano? E ai?", "E quando isso acontecer? E ai?"... Você ria com minha cara de espanto, com meus insights de realidade... E agora eu me encontro chorando com cada espasmo factual.
Talvez esse seja o motivo que me faltava, sabíamos que uma hora encerraríamos nosso tempo. Talvez seja esse o empurrão que eu precisava para me desligar, para desistir... Me provaram substituível, me provaram que eu não mais tão essencial. Você me provou.
Essa poderia ser uma carta de despedida, mas eu sei que nunca chegará a você. Quando decidi te largar, você já havia partido. Não se despediu, nem uma carta se deu o trabalho de escrever.
Nossa história rompida, e eu impotente, estagnada, sem saber a quem recorrer.
Se ela for melhor do que eu, espero que seja feliz. Mas não agora... Agora, espero poder chorar sem culpa.
Aproveite. Tudo que sonhamos juntos.
da sempre sua.
daquela que te chama pelo nome.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
quinta-feira, 30 de abril de 2015
12 suposições num terraço
1ª Estudante de Moda
"Ela não queria sujar de sangue os sapatos novos."
Ao se deparar com a bancada, mais alta do que pensara, usou dos saltos para escalar sua própria vontade. A primeira que lhe serviram, toda sua vida aquelas agulhas só a alfinetaram. Os toc toc vinham cantados os tamanquinhos.
Uma vez lá em cima, retirou o par de saltos vermelhos... Bateu-os três vezes... E saltou aos ventos.
2º O físico
"Descalço provaria a liberdade"
Verdade é... Preso em leis, estava fadado e mais do que provado.
Newton já havia resolvido o problema.
Lá em cima, antes de ir, cortou o ar com um dos sapatos. Esperou; escutou o grande assovio; enfim o baque seco.
Calculou o tempo preciso, a massa necessária e as parábolas de sua vida.
O atrito o incomodava.
Algo precisava fazer sentido e morrer com apenas um pé calçado não se enquadrava em "faz sentido".
Nenhuma entropia poderia ser medida, explicada, provada.
3º O bioquímico
"Queria sentir a adrenalina com mais precisão"
Quando sua namorada lhe trouxe o par de sapatinhos de croché, resolveu não deixar bilhetes.
Deixou apenas os sapatos polidos no parapeito.
Você sabe qual é a química por trás de um aborto?
4ºª Economista.
"Capitalismo"
Poupou muito em sua vida.
Retirou os sapatos,
Massageou os pés cansados,
Levantou-se, respirou
Calmamente, aproveitou
Longamente
Aquele ultimo momento.
Como se fosse o último.
5ª A arquiteta
"Queria testar o pé-direito com os próprios pés"
A alpargata estava descolando a sola, coisa mais boba. De todo modo, descalça não corria o risco de terminar a vida com o pé esquerdo.
6º O cientista político
"É uma forma de protesto, deixando os sapatos como mensagem."
De todos os atos políticos que presenciou...
A chuva torrenciava a desgraça de sua existência.
Encharcara-o até a alma.
Os pés tão pesados pelos sapatos ensopados:
Quase ancoraram aquele ser em cima do muro.
Retirara os calçados.
O que ninguém viu reparou é que ele manteve as meias.
7ª A radialista
"Força do hábito"
Ela apresentava um programa tarde da noite, logo depois da faculdade. Era um estágio mal remunerado. Não havia muito entre chegar em casa e os preparativos para dormir, mas ela repetiu todo o processo - como sempre fazia:
Tirava os sapatos,
repetia pra si mesma "Amanhã vai ser outro dia"
e apagava a luz.
8º O teórico
"Estava possuído, galgou descalço seu caminho para o inferno."
O demonio da teoria ainda não habitava o corpo oriental.
Em teoria: não era agradável pensar nos pés inchados pela embolia sanguínea.
Na prática: algumas culturas retiram o sapato para pisar em solo sagrado - em casa por exemplo.
9º O nadador
"Ele quis tomar impulso"
Realmente, acostumado a mergulhar de cabeça -
Posicionou-se com os dedões na borda, pela firmeza do movimento.
Havia inclusive aberto e flexionado as pernas.
Mas estava descalço por outra razão - para sentir o frio do mármore,
Sempre que levantava de sua cama, punha os pisava em uma superfície gelada.
Almejava acordar de um pesadelo.
Ou se equilibrar para o que viria em seguida.
10ª A antropóloga
"Pela liberdade"
Não, lembrava-se claramente de seu pai explicar, claramente
"Negros libertos usavam sapatos"
Porém, como estudiosa da cultura que a envolvia e a precedia... Quis entender o porquê dos outros 9 terem retirado seus sapatos.
Experimentação cultural.
Perpetuar a cultura de seus iguais, mesmo que não a entendesse... Daí, talvez, pudesse surgir algum tipo de orgulho.
Algum tipo de pertencimento.
11º O músico
"Bater as botas não soava bem".
Todo orgasmo era um arrepio.
Com um espasmo estalava os dedos dos pés.
A sinfonia de 'tecs' lhe tomava o corpo.
12º O poeta
"Queria canonizar. Banalizar a morte em poesia: Tirar os pés do chão"
Era mentira... Ele havia tentado uma primeira vez, mas o vento era forte de mais e o fez voltar.
Da segunda vez, pensou na mãe... No casaco que ela havia costurado como presente de natal.
Após retirar o casaco, pensou no som que seu corpo faria durante a queda... Decidiu tirar todas as falsas asas que o cobriam.
Na quarta vez, pensou em algo inapropriado para o momento. Tirou a cueca, o pano que faltava, por conta de uma piada que seu irmão costumava fazer: "Criando o passarinho solto". Que tipo de pessoa citaria Quintana - "Eu passarinho" - projetando uma gaiola?
Restaram apenas os sapatos de toda roupa que vestia.
"O bilhete!!!"
Com a caneta que sempre guardava no bolso da calça foi explicar seus motivos.
O único local plausível eram as solas de suas botas.
O poeta se expõe nu, mas ainda acreditam que ele queira se tornar um cânone na sociedade dos mortos.
1Xº Jones
"Ela não queria sujar de sangue os sapatos novos."
Ao se deparar com a bancada, mais alta do que pensara, usou dos saltos para escalar sua própria vontade. A primeira que lhe serviram, toda sua vida aquelas agulhas só a alfinetaram. Os toc toc vinham cantados os tamanquinhos.
Uma vez lá em cima, retirou o par de saltos vermelhos... Bateu-os três vezes... E saltou aos ventos.
2º O físico
"Descalço provaria a liberdade"
Verdade é... Preso em leis, estava fadado e mais do que provado.
Newton já havia resolvido o problema.
Lá em cima, antes de ir, cortou o ar com um dos sapatos. Esperou; escutou o grande assovio; enfim o baque seco.
Calculou o tempo preciso, a massa necessária e as parábolas de sua vida.
O atrito o incomodava.
Algo precisava fazer sentido e morrer com apenas um pé calçado não se enquadrava em "faz sentido".
Nenhuma entropia poderia ser medida, explicada, provada.
3º O bioquímico
"Queria sentir a adrenalina com mais precisão"
Quando sua namorada lhe trouxe o par de sapatinhos de croché, resolveu não deixar bilhetes.
Deixou apenas os sapatos polidos no parapeito.
Você sabe qual é a química por trás de um aborto?
4ºª Economista.
"Capitalismo"
Poupou muito em sua vida.
Retirou os sapatos,
Massageou os pés cansados,
Levantou-se, respirou
Calmamente, aproveitou
Longamente
Aquele ultimo momento.
Como se fosse o último.
5ª A arquiteta
"Queria testar o pé-direito com os próprios pés"
A alpargata estava descolando a sola, coisa mais boba. De todo modo, descalça não corria o risco de terminar a vida com o pé esquerdo.
6º O cientista político
"É uma forma de protesto, deixando os sapatos como mensagem."
De todos os atos políticos que presenciou...
A chuva torrenciava a desgraça de sua existência.
Encharcara-o até a alma.
Os pés tão pesados pelos sapatos ensopados:
Quase ancoraram aquele ser em cima do muro.
Retirara os calçados.
O que ninguém viu reparou é que ele manteve as meias.
7ª A radialista
"Força do hábito"
Ela apresentava um programa tarde da noite, logo depois da faculdade. Era um estágio mal remunerado. Não havia muito entre chegar em casa e os preparativos para dormir, mas ela repetiu todo o processo - como sempre fazia:
Tirava os sapatos,
repetia pra si mesma "Amanhã vai ser outro dia"
e apagava a luz.
8º O teórico
"Estava possuído, galgou descalço seu caminho para o inferno."
O demonio da teoria ainda não habitava o corpo oriental.
Em teoria: não era agradável pensar nos pés inchados pela embolia sanguínea.
Na prática: algumas culturas retiram o sapato para pisar em solo sagrado - em casa por exemplo.
9º O nadador
"Ele quis tomar impulso"
Realmente, acostumado a mergulhar de cabeça -
Posicionou-se com os dedões na borda, pela firmeza do movimento.
Havia inclusive aberto e flexionado as pernas.
Mas estava descalço por outra razão - para sentir o frio do mármore,
Sempre que levantava de sua cama, punha os pisava em uma superfície gelada.
Almejava acordar de um pesadelo.
Ou se equilibrar para o que viria em seguida.
10ª A antropóloga
"Pela liberdade"
Não, lembrava-se claramente de seu pai explicar, claramente
"Negros libertos usavam sapatos"
Porém, como estudiosa da cultura que a envolvia e a precedia... Quis entender o porquê dos outros 9 terem retirado seus sapatos.
Experimentação cultural.
Perpetuar a cultura de seus iguais, mesmo que não a entendesse... Daí, talvez, pudesse surgir algum tipo de orgulho.
Algum tipo de pertencimento.
11º O músico
"Bater as botas não soava bem".
Todo orgasmo era um arrepio.
Com um espasmo estalava os dedos dos pés.
A sinfonia de 'tecs' lhe tomava o corpo.
12º O poeta
"Queria canonizar. Banalizar a morte em poesia: Tirar os pés do chão"
Era mentira... Ele havia tentado uma primeira vez, mas o vento era forte de mais e o fez voltar.
Da segunda vez, pensou na mãe... No casaco que ela havia costurado como presente de natal.
Após retirar o casaco, pensou no som que seu corpo faria durante a queda... Decidiu tirar todas as falsas asas que o cobriam.
Na quarta vez, pensou em algo inapropriado para o momento. Tirou a cueca, o pano que faltava, por conta de uma piada que seu irmão costumava fazer: "Criando o passarinho solto". Que tipo de pessoa citaria Quintana - "Eu passarinho" - projetando uma gaiola?
Restaram apenas os sapatos de toda roupa que vestia.
"O bilhete!!!"
Com a caneta que sempre guardava no bolso da calça foi explicar seus motivos.
O único local plausível eram as solas de suas botas.
O poeta se expõe nu, mas ainda acreditam que ele queira se tornar um cânone na sociedade dos mortos.
1Xº Jones
quinta-feira, 23 de abril de 2015
quarta-feira, 22 de abril de 2015
No nome de quem?
Com desespero,
a ligação completou,
saudaram-se;
Pausa.
"Queria explicar minha situação".
Tomou fôlego.
A vida passou de supetão pela rede telefônica.
"E por isso... [Entre soluços]
Eu queria ver o que é possível fazer por mim."
O atendente,
sem reação emotiva,
Renova o livro que ela devia.
Ela - mais calma -
agradece.
- Nada, qualquer coisa me ligue.
JoneSessentaCincoDois
a ligação completou,
saudaram-se;
Pausa.
"Queria explicar minha situação".
Tomou fôlego.
A vida passou de supetão pela rede telefônica.
"E por isso... [Entre soluços]
Eu queria ver o que é possível fazer por mim."
O atendente,
sem reação emotiva,
Renova o livro que ela devia.
Ela - mais calma -
agradece.
- Nada, qualquer coisa me ligue.
JoneSessentaCincoDois
segunda-feira, 16 de março de 2015
Enquanto corria
Viajei por todos os mares,
oceanos de angustias e entardeceres.
oceanos de angustias e entardeceres.
Amores em cada porto, como ondas, a vida e tudo mais:
Marcas na pele.
Juntei-me em todas as manchas de sol e as fiz tinta - presa à pele.
Marcas na pele.
Juntei-me em todas as manchas de sol e as fiz tinta - presa à pele.
A melanina, mais preta, mais sensível.
A tinta, que me caracterizava como saqueador de navios.
Formara uma âncora.
um Ferro.
um Ferro.
Costumo descrever tal simbólica deformidade como instrumento.
Atiro todos os dias minhas experiências ao mar, na tentativa de me estabilizar.
Afundo-me junto às expectativas e tento manter-me com os pés no chão (ou melhor, nas águas).
A tatuagem que me torna marinheiro, viajante, aventureiro... renega minha essência, pois seu significado tenta me ater ao fundo do mar.
O paradoxo que me leva a navegar.
A necessidade que um objeto de ferro impõe ao navio de madeira.
A repetição: mar, navio, -ar.
Todos os dias, carrego minhas lembranças, mágoas, arrependimentos e pesos na consciência... Até abordar um inconsciente que me abarca.
Jogo essa liga ferrosa como oferenda a Iemanjá, como promessa aos santos, como revés ao destino.
Mas não a dispenso. Mantenho-a presa a barca.
Um lembrete: mesmo dura e pesada, minha história ainda é minha.
Só posso pedir que me poupe, me sirva de porto, me apazigue.
No final do dia, me junto à boia da baía.
Quanto à âncora,
Junto cada sarda... E lá está ela,
O fardo preso ao antebraço.
Jone\|/s
quinta-feira, 12 de março de 2015
A polifonia do discurso
Ela esvaziou o estojo
- O que diz bastante sobre ela, não é todo mundo na faculdade que tem um estojo.
e colocou as 4 canetas vermelhas na mesa.
- Obviamente não utilizaria essa cor à toa, tem sempre uma metonímia, uma metáfora...
- Mas, se quisesse ser óbvio linkaria tudo aos lábios...
Vermelhas como seus olhos.
- Agora, resta ao leitor definir as razões.
As quatro foram testadas, uma a uma, todas vazias.
- Não vou tenta associar a nenhum aspecto da vida dela, pode deixar.
Perguntaram a ela:
"Are you ok?"
She didn't listen.
- Aí é interessante, porque o narrador mudou de língua.
- E o escritor tem um histórico em associar idiomas a sentimentos.
No cantinho mais fundo do estojo, havia um lápis creon.
- Tem uma brincadeira... Talvez daquele tipo de "o autor quis dizer" com a escolha de vocábulos nessa sentença.
- Sentença é uma palavra tão forte, né?
Ela o realocou no bolso de seu vestido.
- Aqui, se tivéssemos uma descrição mais completa dessa "mulher/garota/senhora" saberíamos que ela detesta usar vestidos (por conta de suas pernas finas e tortas). Que se sente sempre assolada ao se sentar. E que tenta puxar o vestido com força([s] vetoriais > meridionais), através dos punhos fechados que socam os bolsos.
- Porém, a descrição é falha e neutra. Vocês nunca saberão nada disso sobre ela.
Fechou. Antes de a professora dar a aula por terminada.
- Fechou o que? Essa acepção é feita com o intuito de mostrar como ela AMA a matéria que está tendo. A matéria era literatura.
- Isso foi irônico? Tem importância que matéria ela está tendo?
Catou as canetas usadas, alinhadas, desgastadas.
- Bem comum esse recurso, talvez empobreça o texto.
Atirou todas 3 na lixeira,
Parou na última.
- Há uma alternação de sentido em como ela maneja as canetas: "todas", "última", "uma a uma".
Imitando uma pirata, saqueadora, caolha.
- Já que estamos na bosta mesmo, não custa muito...
Olhou o tubinho e constatou:
- Vazio, manchado, talvez haja um restinho que nunca mais vai sair.
Jones
- O que diz bastante sobre ela, não é todo mundo na faculdade que tem um estojo.
e colocou as 4 canetas vermelhas na mesa.
- Obviamente não utilizaria essa cor à toa, tem sempre uma metonímia, uma metáfora...
- Mas, se quisesse ser óbvio linkaria tudo aos lábios...
Vermelhas como seus olhos.
- Agora, resta ao leitor definir as razões.
As quatro foram testadas, uma a uma, todas vazias.
- Não vou tenta associar a nenhum aspecto da vida dela, pode deixar.
Perguntaram a ela:
"Are you ok?"
She didn't listen.
- Aí é interessante, porque o narrador mudou de língua.
- E o escritor tem um histórico em associar idiomas a sentimentos.
No cantinho mais fundo do estojo, havia um lápis creon.
- Tem uma brincadeira... Talvez daquele tipo de "o autor quis dizer" com a escolha de vocábulos nessa sentença.
- Sentença é uma palavra tão forte, né?
Ela o realocou no bolso de seu vestido.
- Aqui, se tivéssemos uma descrição mais completa dessa "mulher/garota/senhora" saberíamos que ela detesta usar vestidos (por conta de suas pernas finas e tortas). Que se sente sempre assolada ao se sentar. E que tenta puxar o vestido com força([s] vetoriais > meridionais), através dos punhos fechados que socam os bolsos.
- Porém, a descrição é falha e neutra. Vocês nunca saberão nada disso sobre ela.
Fechou. Antes de a professora dar a aula por terminada.
- Fechou o que? Essa acepção é feita com o intuito de mostrar como ela AMA a matéria que está tendo. A matéria era literatura.
- Isso foi irônico? Tem importância que matéria ela está tendo?
Catou as canetas usadas, alinhadas, desgastadas.
- Bem comum esse recurso, talvez empobreça o texto.
Atirou todas 3 na lixeira,
Parou na última.
- Há uma alternação de sentido em como ela maneja as canetas: "todas", "última", "uma a uma".
Imitando uma pirata, saqueadora, caolha.
- Já que estamos na bosta mesmo, não custa muito...
Olhou o tubinho e constatou:
- Vazio, manchado, talvez haja um restinho que nunca mais vai sair.
Jones
terça-feira, 10 de março de 2015
Psicossomático
Achei um documento que acreditei eu ser uma causa mortis.
Não era.
Entendi ser uma receita, prescrição para remediar o não.
Mal foi.
Rasguei o amassado desdobramento de parecer medicinal em 4 (quatro).
É assim:
Engasgado em clichês que não usou.
Agente causador: Medo de plágios comuns.
Sintomas: Súbito inflar de peito em suspensão de suspiro; lacrimejar esforçado por razões forçadas; mordidas aflitas no lábio inferior acompanhadas de trilha sonora folkanianas; reações alérgóricas à filmografia pseudo-romântica seguida de soluçar arritmo petulante, morte enunciada.
Profilaxia: Cite-se duas vezes ao dia, tomando cuidado em sempre utilizar discurso armazenado em local livre e direto.
cold.
Agente causador: Exposição ~ em demasia ~ da solidão ao relento.
Sintomas: Pé frio; tatuagens e cicatrizes doloridas; inchaço e vermelhidão em toda face (principalmente ao se deparar consigo mesmo no espelho); dissertações compulsivas em formato de stream of consciousness.
Profilaxia: Vestir calças longas, "vivendo" protegido de qualquer tipo de arrepio.
"Indetereminência"
Agente causador: Schizophrenia Nostalgicas
Sintomas: forte propensão ao monólogo; coceira no ego; grandes pausas
de silêncio
anárquico;
péssimo entendimento de si mesmo; desamor carnal.
Profilaxia: Pastiches moderados com altas dosagens de pós-modernismo de um conceito de "eu".
Esvaziamento das vistas
Agente causador: Unknown
Sintomas: Coloração intensa de toda causa externa; desvio da função "will"; surgimento de lacunas arquitetônicas no subjetivo; miopia funcional aplicada aos relacionamentos interpessoais.
Profilaxia: Escrever.
Já era noite, tranquei a biblioteca, desci as escadas, o vento uivou, os sinos da igreja tocaram e a porta se encontrava meio aberta, à meia luz. Essa cena, na qual Poe se deleitaria, me suspendeu um suspiro, um calafrio nas pernas, uma certa confusão mental e uma vontade pungente de escrever.
J§nes
Não era.
Entendi ser uma receita, prescrição para remediar o não.
Mal foi.
Rasguei o amassado desdobramento de parecer medicinal em 4 (quatro).
É assim:
Engasgado em clichês que não usou.
Agente causador: Medo de plágios comuns.
Sintomas: Súbito inflar de peito em suspensão de suspiro; lacrimejar esforçado por razões forçadas; mordidas aflitas no lábio inferior acompanhadas de trilha sonora folkanianas; reações alérgóricas à filmografia pseudo-romântica seguida de soluçar arritmo petulante, morte enunciada.
Profilaxia: Cite-se duas vezes ao dia, tomando cuidado em sempre utilizar discurso armazenado em local livre e direto.
Agente causador: Exposição ~ em demasia ~ da solidão ao relento.
Sintomas: Pé frio; tatuagens e cicatrizes doloridas; inchaço e vermelhidão em toda face (principalmente ao se deparar consigo mesmo no espelho); dissertações compulsivas em formato de stream of consciousness.
Profilaxia: Vestir calças longas, "vivendo" protegido de qualquer tipo de arrepio.
"Indetereminência"
Agente causador: Schizophrenia Nostalgicas
Sintomas: forte propensão ao monólogo; coceira no ego; grandes pausas
de silêncio
anárquico;
péssimo entendimento de si mesmo; desamor carnal.
Profilaxia: Pastiches moderados com altas dosagens de pós-modernismo de um conceito de "eu".
Esvaziamento das vistas
Agente causador: Unknown
Sintomas: Coloração intensa de toda causa externa; desvio da função "will"; surgimento de lacunas arquitetônicas no subjetivo; miopia funcional aplicada aos relacionamentos interpessoais.
Profilaxia: Escrever.
Já era noite, tranquei a biblioteca, desci as escadas, o vento uivou, os sinos da igreja tocaram e a porta se encontrava meio aberta, à meia luz. Essa cena, na qual Poe se deleitaria, me suspendeu um suspiro, um calafrio nas pernas, uma certa confusão mental e uma vontade pungente de escrever.
J§nes
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